Após conviver com a falta de patrocínio e visibilidade, Érica Prado criou o projeto, que apoia surfistas profissionais e inspira mulheres negras a ingressarem no esporte.
Assim como aconteceu com a inclusão no mercado de trabalho, a onda feminista no surfe não chegou da mesma forma para todas nós. No atual ranking da WSL – entidade internacional do surfe – temos mais de 60% de mulheres loiras (11 dentre as 17), e nenhuma delas com cabelos crespos ou cacheados.

Onde será, então, que estão as lacunas, que distanciam as mulheres negras dos lugares mais altos do pódio – seja na mídia ou no apoio dos patrocinadores?
Para falarmos sobre isso é importante entendermos o racismo não apenas como casos isolados de preconceito. Os anos de escravidão construíram a base para uma estrutura social desigual, que prejudica a vida e a carreira de pessoas negras, inclusive, no surfe. É isso que chamamos de “racismo estrutural”.
Nesse sentido, acabamos vendo um ciclo vicioso, em que a falta de visibilidade dessas atletas acarreta na falta de patrocínio, que prejudica as chances de evolução, que não traz a visibilidade no esporte.
Movimento Surfistas Negras
Percebendo esse apagamento, Érica Prado – ex-surfista profissional, e atual Jornalista e Comentarista de surfe – criou o Movimento Surfistas Negras em 2019 como uma forma de remar contra a maré e chamar atenção para surfistas negras e nordestinas que não estavam sendo vistas pelas principais marcas do território.
“Eu via mulheres como Silvana Lima, Alcione Silva e Titas Tavares sem patrocínio, enquanto mulheres que atendiam outros padrões e estereótipos com patrocínio. Eu despertei pra isso em 2015, quando fui pra California pela primeira vez e conheci o projeto Black Girls Surf. Na hora, eu falei: ‘Irado esse movimento, tinha que acontecer alguma coisa parecida no Brasil’, só que eu não via muita abertura’,” disse Érica Prado.
Érica contou, em entrevista ao veículo de comunicação Dibradoras, que percebeu que sua história era igual a de outras meninas parecidas com ela. A jornalista citou inúmeros exemplos de atletas que já sofreram ou ainda sofrem com a falta de patrocínio.

Por esse motivo, um dos objetivos do Movimento Surfistas Negras é garantir a permanência dessas atletas em competições nacionais, por meio de financiamentos coletivos e/ou incentivos institucionais.
Além desse papel importantíssimo, o projeto promove encontros entre mulheres que querem se conectar com o esporte, e para isso, buscam um ambiente seguro e acolhedor para brincar nas ondas.

O último evento aconteceu no Dia Internacional da Mulher, na Praia da Macumba, Rio de Janeiro. Foram, aproximadamente, 20 mulheres reunidas, em uma manhã com aula de yoga com @yogamarginal, aulão de surfe com @dianacristinatininha, café da manhã e almoço.
Empreendimentos como o de Érica Prado funcionam como um exercício de autocuidado radical para mulheres negras. Por meio do coletivo, o fôlego é reabastecido para continuar na luta, buscando um crowd feminino e negro.
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